Fim de Campanha

Assim como todo carnaval tem seu fim, toda campanha de RPG tem um final. Esse final pode ser planejado antes, como no caso das aventuras prontas de D&D ou das Jornadas Heroicas de Tormenta20, onde o nível dos aventureiros no final já faz parte da descrição da aventura. Ou o final da campanha pode ser natural, quando os personagens atingiram seus objetivos e os jogadores decidem que é um bom ponto de encerramento. Mas planejado ou não, as grandes aventuras de RPG chegam ao final uma hora ou outra. Sempre.
Meu Próprio Exemplo
A campanha de RPG mais longa que já joguei foi uma mesa de D&D 3.5. Jogamos em Forgotten Realms, explorando o Norte e o Anauroch, do nível 1 ao 17. Durante dois anos joguei com minha classe favorita, um Clérigo de Tempus. Foram aventuras semanais atrapalhando os planos do Culto do Dragão e explorando os vestígios do Império Netheril. Tudo isso antes de virar moda com Baldur’s Gate 3.
Pode ficar o sentimento de campanha inacabada para os acostumados com a Quinta edição, mas na 3.5, os personagens podiam facilmente avançar além do nível 20. Apesar disso, no nível 17, nossas jornadas já estavam encerradas. Um personagem de um amigo meu já havia morrido, sido revivido, e estava feliz com sua esposa. Meu personagem, após ganhar um seguidor fiel, salvo de diversos trogloditas, havia espalhado sua influência e estava administrando a Igreja da Guerra. Tínhamos visitado Os Vales, conversado com Storm Mão Argêntea e estragado os planos do Manshoon.
O Fim Natural
O nível 17 é emblemático em D&D porque ele marca uma mudança de patamar clara. Os conjuradores ganham acesso às magias de 9º Círculo. No caso dos Clérigos da 3.5 isso significava Invocar Criaturas IX, Implosão e Milagre. Nesse ponto, os grupos estão tão poderosos e possuem tantas capacidades que o desafio se torna diferente. E você achou que o jogo quebrar nos níveis altos era coisa da 5e…
Com acesso aos maiores poderes de suas classes, cheios de itens mágicos e com acesso as forças primordiais do universo e linha direta com uma divindade, nosso ritmo de aventura foi diminuindo até a campanha ser aposentada. Nós não sentamos e decidimos não jogar mais. Aconteceu naturalmente, em um ponto da aventura, após impedir os planos do Culto do Dragão e derrotar um Dracolich. Neste ponto cada um dos personagens seguiu seu caminho naturalmente. Acho que todos nós sabíamos que era o final da campanha, mas olhando pra trás, eu gosto do jeito que acabou. Prometemos jogar novamente em breve, pois a vida estava corrida, mas nenhum de nós quis tocar naquela campanha novamente. Ela segue imaculada, e gosto de me lembrar de Ilitch às vezes, tocando sua igreja e preparando seu sucessor para o dia que a última batalha irá leva-lo para o lado de Tempus.
A Tristeza do Fim
Essa campanha voltou à minha mente hoje pois outra aventura de RPG acabou. Durante dois anos, eu participei de todos os eventos do Café e RPG. Desde o primeiro evento, onde apenas algumas pessoas apareceram e mestrei Dragonlance até o último evento no qual levei uma masmorra clássica da OSR. Tivemos desafios diversos e vitórias lendárias. O Café e RPG deixa um legado importante na cena local. Ao longo desses dois anos outros eventos surgiram e uma comunidade RPGistica que parecia não existir mais em Porto Alegre ressurgiu. Diversos mestres se juntaram para trocar experiências, aventuras e até negócios que mudaram a cena do RPG brasileiro nasceram no evento. Foram mestres que se conheceram no Café e RPG que se juntaram para criar o Mesaquest, que hoje possui parceria com a Netflix Brasil fomentando o RPG para uma nova geração de mestres.
Ontem tivemos o anúncio que Oitava Edição, que deveria acontecer no Dia 31 de Outubro não irá mais acontecer. E que o evento vai fazer uma pausa. E quando lembro o final da Sétima Edição, quando após o evento os mestres ficaram conversando e marcando jogos, eu sinto uma nostalgia de quando a minha campanha acabou. Nenhum de nós sabia que era o final, mas existia um clima no ar de dever cumprido. Eu fico triste com o final do evento. Mas sinto que ele deixou um legado que todos os envolvidos devem se orgulhar. Eu poderia tentar citar todos os envolvidos aqui e ia esquecer alguém que ia ficar chateado comigo. Então vou agradecer somente aos meus amigos Léo e Bell. Porque graças a vocês hoje eu enxergo esse hobby de maneira diferente. E graças a esse evento, eu tive mais oportunidades do que eu poderia imaginar com esse jogo que me acompanha a tantos anos. Conheci pessoas maravilhosas que eu vou levar pro resto da vida comigo. E pude sonhar um pouco mais alto. Obrigado não é suficiente pra honrar tudo que aconteceu, mas o Café e RPG foi a maior aventura de RPG que já vivi.

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