Antecipação do Desafio e Agência do Jogador

Antecipação: substantivo feminino. Ato ou efeito de antecipar(-se).

Estou participando de uma campanha de D&D. Normalmente eu não sou jogador, mas essa oportunidade surgiu e eu acabei entrando em uma mesa em andamento que estava com poucos jogadores. Como faziam alguns anos que eu não jogava D&D, resolvi aproveitar. Minha personagem foi construída de maneira bem simples. Conhecendo a fama da campanha, preenchi o grupo com uma clériga, já que eles estavam com pouco suporte e poder mágico. O fato de clérigo ser minha classe favorita foi apenas coincidência.
A integração com o grupo foi bastante tranquila. Como jogador recém chegado, nas primeiras sessões fiquei observando a dinâmica da mesa. A mesa era composta por uma dupla de jogadores que estavam juntos desde o começo da campanha e por outro jogador que tinha chegado recentemente.
As primeiras sessões foram bastante focadas em roleplay e na dinâmica política da cidade. Tudo parecia funcionar bem na mesa, que apesar de se vender como sandbox, tinha uma história que o mestre tentava levar pra frente. Quando o grupo não perseguia o avanço desta história, o jogo emperrava um pouco, mas o problema de verdade apareceu quando os combates começaram.

O Primeiro Combate

No primeiro combate, após investigar um sumiço na cidade o grupo teve que se apressar para salvar um refém. Ao chegar ao local do salvamento, fomos atacados por um monstro escondido. Este combate não teve antecipação, mas estava claro para qualquer um que já jogou RPG que era uma armadilha.
Minha personagem foi completamente inútil neste combate devido a situação tática da cena. A criatura estava numa posição de vantagem, sem linha de visão clara e com terreno que impedia a minha aproximação. Apesar da situação adversa, vencemos sem grande risco, apenas com bastante gasto de recursos. Minha personagem ficou sem espaços de magia acima do primeiro círculo, já que além de curar, precisou utilizar restauração nos membros do grupo, para remover algumas maldições e efeitos negativos impostos pela criatura. Felizmente não tivemos nenhuma baixa e salvamos o refém.

O Segundo Combate

Após mais algumas sessões de roleplay, onde o grupo negociou com diferentes facções, decidimos viajar até outro local para perseguirmos nossos próprios interesses. Haviam rumores de uma torre com um mago poderoso e o bruxo do grupo estava interessado em explorar o local. O problema é que um dos ganchos do mestre estava na metade. Haveria um evento na cidade e a todo momento o mestre citava consequências para o grupo caso nós perdêssemos o evento. Parecia algo que ele gostaria que o grupo explorasse. Apesar disto, como a campanha deveria ser um sandbox, o grupo decidiu viajar ao amanhecer e ignorar o evento que ocorreria no próximo dia.
Viajamos o dia inteiro pressionados pelo mestre, que parecia incomodado com nossa decisão. Depois de testes contra exaustão pela viagem longa, no qual todos os membros do grupo foram bem sucedidos, chegamos até uma ponte estreita. Este detalhe será importante no futuro próximo. Ao atravessarmos a ponte imediatamente avistamos uma criatura, que investiu em nossa direção.
Como estamos utilizando o FoundryVTT, imediatamente o mestre rolou a iniciativa da criatura e de todo o grupo de maneira automática. Quando nós percebemos, já estávamos em combate. Este combate acabou sendo extremamente difícil, minha personagem caiu nas duas vezes que foi atacada, sendo salva pelo Bardo do grupo. Sem muitas opções, após diversas tentativas de ataque mágicos, conseguimos fazer a criatura se afastar. Para evitar que a criatura atacasse novamente nossos conjuradores, o bárbaro do grupo decidiu avançar e bloquear o caminho. Afinal, como a ponte era estreita e a criatura grande, ele poderia manter a criatura à uma distância segura enquanto minha personagem e o bruxo mantínhamos a pressão com nossas magias.
No turno seguinte, após bloquear a investida da criatura, nosso bárbaro levou um golpe e morreu imediatamente com o ataque da criatura. Sem chance de cura, sem chance de ressurreição, devido a uma habilidade única da criatura.
Nós vencemos com muito custo, mas esse combate deixou o grupo inteiro com um gosto amargo na boca, e causa não foi a morte do personagem.

Falta de Antecipação e Quebra de Agência

Antecipação em RPG pode ser resumida como uma técnica utilizada para demonstrar perigos e recompensas para os personagens jogadores. Essa técnica visa garantir que o grupo irá tomar decisões informadas, preservando a agência do jogador.
Com essa definição em mente, dá pra ver que o perigo do segundo combate não foi antecipado, gerando quebra de agência.
“Ah, mas por que? Foi um encontro aleatório…” disse aquele mestre que adora contar sua história. Por um motivo bem simples: em nenhum momento o encontro com a criatura foi antecipado. Uma criatura flamejante, de tamanho grande, deixaria vestígios de sua presença. Especialmente uma tão mortal. Não havia relatos de ataques na estrada, queimaduras no chão por onde a criatura transitou e a luminosidade de seu corpo flamejante não foi vista no escuro, já que nosso encontro aconteceu após o por do Sol.
Sem antecipação, nosso grupo não teve chances de se preparar para o encontro. Além disso, talvez nosso grupo não quisesse enfrentar esta criatura. Pistas e relatos de um monstro poderiam fazer o grupo tomar outra rota, ou simplesmente não viajar naquela direção. O grupo poderia ter viajado apesar dos rumores da estrada perigosa, mas esta teria sido uma decisão informada. A decisão informada preservaria a agência dos jogadores, e não teria gerado o gosto amargo na boca de todos quando nosso companheiro morreu em um encontro que parece ter sido colocado na estrada como punição para o grupo que não seguiu a história que o mestre estava afim de contar.

Seguindo após este evento

Eu não pretendo abandonar esta campanha apesar desse problema grave. Não porque eu estou gostando. Após o incidente do segundo combate, nós já tivemos mais quebra de agência e punição por não seguir o caminho traçados pelos trilhos do mestre. Após os eventos do segundo combate, eu estou desengajado desta campanha, e não me importo mais se minha personagem morrer em uma situação dessas. Outros jogadores também parecem desengajados e já tivemos um jogador que abandonou a campanha.
Mas por que continuar então? Porque estou encarando esta campanha como um estudo das piores práticas que o mestre pode fazer em uma mesa de RPG. E esta parece a campanha perfeita para refletir sobre estas situações e escrever aqui minhas impressões.

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