RPG Não É Cinema

Cena, câmera, protagonista, roteiro, plot twist, trilha sonora e efeitos especiais. Parece a lista simplificada do que é necessário para criar um filme, mas isso é apenas parte do que hoje é considerado essencial em uma boa mesa de RPG.
Frequentemente eu escuto “fulano fez cinema” quando alguém descreve uma mesa ou sessão de RPG. As pessoas já devem estar cansadas de mim nesses momentos, pois minha pergunta é sempre a mesma: “o RPG não é suficiente, e precisa ser comparado ou se tornar outra arte pra ter valor?”. Eu sou chato sim, eu sei. Mas eu acredito que existe uma grande desvalorização do jogo quando utilizamos outras artes nesta comparação, como se a disputa dialética fosse uma arte inferior a outras. Seguindo a lógica que uma boa mesa de RPG é cinematográfica, o objetivo final do bom mestre seria se tornar um diretor ou roteirista para impressionar seus jogadores. Uma besteira sem tamanho.

Um Exemplo dos Quadrinhos

História em Quadrinhos foi outra mídia que sofreu bastante com comparação ao longo do tempo. Apesar de ter mais de 100 anos (a data de surgimento e o local ainda são debatidos), apenas nos anos 70 começaram os estudos sérios sobre a mídia dos quadrinhos e uma das primeiras conclusões dos estudos foi que quadrinho não é literatura. No ocidente os quadrinhos são frequentemente associados a crianças, e desvalorizados como arte. Mais de uma vez tive que escutar de pessoas ignorantes que quadrinhos ou mangás não possuíam valor, já que tinham pouco texto. Que seria melhor ler um livro.
Para suplantar esta desvalorização, as editoras procuraram se afastar da própria mídia em busca de novos mercados e maior valorização. Assim surgiram as graphic novels: quadrinhos mais bem produzidos, que tratavam de temas “sérios”. Uma estratégia de marketing muito bem sucedida na época, que serviu ao propósito de destacar algumas histórias. Infelizmente o resultado não foi somente positivo, e isso acabou em uma gourmetização do mercado, com cada vez mais formatos premium em detrimento do conteúdo. Conseguem ver a semelhança com o RPG e seus livros cada vez mais caros, com acabamento de luxo e conteúdo reciclado sem inovação?

O RPG Como Mídia.

Assim como os quadrinhos, o RPG é uma mídia recente. Apesar da tradição milenar de contar histórias em volta da fogueira, e dos Kriegsspiel do século XIX, podemos datar o surgimento do RPG com o D&D em 1974. E como uma mídia recente, ainda não foi estudado a fundo. Existem boas pesquisas sobre o jogo, sua história e influências, especialmente por parte de Jon Peterson. Seu livro The Elusive Shift conta muito sobre a disputa no começo do hobby, uma disputa na forma como o jogo deveria ser jogado. Mas com o surgimento dos jogos eletrônicos, não demorou para surgirem os RPGs eletrônicos.
Com o aumento do faturamento da indústria dos jogos eletrônicos, os estudos de game design começaram a se concentrar neles, e os estudos de RPG rapidamente migraram para os RPGS eletrônicos. Hoje é muito difícil encontrar estudos sobre tabletopRPG sem influência dos jogos eletrônicos. A academia seguiu o dinheiro e hoje os estudos sobre os RPGs de mesa se concentram em blogs e podcasts. Comunidades apaixonadas avançaram no estudo do jogo e moldaram a evolução da mídia. Das lendárias discussões na Forge e dos artigos do The Alexandrian até as discussões acaloradas da comunidade do Café com Dungeon o estudo sobre o jogo avança apesar da falta de recursos.

O Jogo Incompleto

Em diversos posts eu escrevi que o RPG acontece na mesa. Mas muita gente não entende o que isto significa. O RPG é um jogo incompleto. Enquanto não foi jogado, ele não possui conflito, história, protagonistas ou antagonistas. Ao contrário de um filme, que é uma mídia passiva construída para uma audiência, o RPG não existe fora da mesa. Ele é uma mídia ativa, onde os jogadores e o mestre continuamente disputam a ficção, criando de maneira emergente uma narrativa. Esta narrativa pode inclusive ser diferente para cada um dos jogadores, pois detalhes não reivindicados podem ser imaginados e interpretados de maneira diferente por cada um dos jogadores.
Descrever uma mesa de RPG como cinematográfica significa dizer que existe uma força criativa acima das outras, um mestre no papel de diretor ou roteirista apresentando o mundo para o jogadores que ocupam uma posição passiva. E isso invariavelmente acarreta em quebra de agência.

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