Jogo de Faz de Conta

RPG é uma sigla complicada de traduzir. Roleplay não tem uma tradução direta que capture seu sentido. Mesmo play é uma palavra complicada de traduzir, devido a seus vários significados. Minha edição de Homo Ludens possui uma Nota do Tradutor na primeira página de texto: “A diferença entre outras línguas europeias – em que spielen, play, jouer, jugar significam tanto jogar quanto brincar – e a nossa nos obriga frequentemente a escolher um ou outro desses dois, sacrificando assim à exatidão da tradução; uma unidade terminológica que só naqueles idiomas seria possível (N. da T.)”.
Interpretar pode ser definido como tomar decisões e viver experiência sob a perspectiva de um personagem. Isto é diferente de atuar, que possui como foco entregar uma performance para um público. Infelizmente quando se discute RPG, interpretação é confundida com fazer vozes, trejeitos, sotaques e com atuações dignas das melhores (ou piores) novelas mexicanas.

Um Exemplo Simples

Durante a discussão que tive essa semana sobre roleplay, um exemplo de falta de roleplay foi que “guerreiro faz bonk” não possuia interpretação. Uma visão incorreta, que confunde interpretação e atuação. Quando jogamos com um guerreiro, e escolhemos as armas, os golpes e táticas de um combate, não estamos interpretando? Não existe rpg sem roleplay, mas existe roleplay sem tentar levar o mestre e outros jogadores às lágrimas com uma atuação digna do Framboesa de Ouro. Os jogadores de RPG em uma mesa não são audiência, mas parte ativa da atividade lúdica. Quando estamos falando em interpretação, estamos falando em tomar decisões e atuar conforme entendemos a realidade daquele personagem. Quando nosso foco passa a ser impactar outros jogadores, o mestre ou uma platéia, saímos do RPG de mesa padrão e estamos falando de RPG Show ou quarta agenda, um tipo completamente separado de narrativa ergódica para os jogadores e que ainda precisa ser estudada com mais profundidade.

Uma Nova Definição

Como eu disse, traduzir roleplay é difícil. Eu não sou fã da tradução JIP, pois acho que o problema se mantém. E foi no grupo do Café com Dungeon que surgiu um termo melhor na minha opinião. Guilherme Providello, autor do Jogo de Elfo, sugeriu o termo Jogo de Brincar de Papéis. Em linha com a Nota do Tradutor do livro que citei antes, play possui significado de brincar, e Huizinga não enxerga diferença entre brincar, jogar e interpretar, sendo todas atividades lúdicas. No RPG nós brincamos de papéis diferentes do nossos. Podemos brincar de guerreiros, anões, astronautas e cultistas. Em nenhum momento é necessário impactar uma audiência, ou se preocupar com roteiro e atuação. Quando estamos dentro do círculo mágico interpretamos um personagem ao brincarmos de tomar as decisões por ele. Se meu guerreiro é um bonker, quando eu digo que ele faz bonk, estou interpretando. E é assim que jogamos esse Jogo de Brincar de Papéis.

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