Enfiando Uma Faca No Seu Background

Background é a causa de algumas das maiores discussões no meio do RPG. As discussões começam em quantas páginas deve ter um background e seguem até dicas de como o mestre deve utilizar o background dos personagens. Este tema parece não sair de moda, e enquanto alguns mestres reclamam de não receberem backgrounds de seus jogadores, outros reclamam de receber backgrounds de 56 páginas para personagens de primeiro nível.
Esta semana, ressurgiu na comunidade brasileira a “Teoria das Facas”, uma técnica de criação de background para D&D 5e que apareceu no Reddit há quase 10 anos. Eu não sei o que trouxe de volta o interesse súbito nesta técnica, já que o número de produtores de conteúdo falando sobre o assunto explodiu no ultimo mês. Mas o canal Mystic Arts fez um video sobre a técnica 4 meses atrás. Coincidência, claro.

A Minha Técnica de Criação de Background

Eu não vou discutir a Teoria das Facas aqui. Basta abrir o Instagram ou o Tik Tok da RPGsfera e você deve achar um vídeo sobre o assunto em menos de 1 minuto. Então, aproveitando o hype do background eu vou discutir a minha técnica de criação de background. Sem facas, colheres nem garfos. Esta técnica facilita a vida do jogador e do mestre e não requer nenhum talher. A técnica que eu utilizo é bastante simples, e pode ser resumida em uma frase: não crie um background! Inovador, eu sei.

O Background Minimalista

A maior parte dos personagens recém criados não deveria possuir um background maior que uma frase. Afinal, que grandes feitos aquele personagem de primeiro nível pode ter realizado? Na maioria das campanhas, os personagens dos jogadores possuem uma expectativa de aventura escrita na forma de background. Inclusive, é isto que a teoria das facas prega: que o jogador vai colocar situações que o mestre irá utilizar para criar conflito no futuro. Esta prática joga muita responsabilidade sobre o mestre, que além de conhecer o background de todos os jogadores, deve utilizar estes backgrounds de maneira satisfatória para o jogador.
O background minimalista elimina esta responsabilidade, já que define o personagem em no máximo uma frase. E por que isso é interessante? Por que o personagem deve trazer ou criar seu background de maneira emergente. O RPG acontece na mesa e o background do personagem não existe até aparecer em jogo.

Um exemplo prático

Na minha mesa de Curse of Strahd, que mencionei aqui algumas vezes, eu tenho uma clériga de quinto nível. Eu entrei um pouco depois na campanha, e tive que assistir um trailer de 10 minutos sobre a campanha e sobre o que já tinha acontecido na mesa. Diversas informações que esqueci antes do vídeo acabar.
Minha personagem foi criada apenas com um nome. Isso não significa que ela era uma casca vazia, mas eu não escrevi nem defini nada sobre seu passado. Naquele momento da campanha não era importante nem interessante, e o background começou a aparecer de maneira orgânica na mesa. Na primeira igreja que os personagens visitaram, ao perceber que a igreja passava por dificuldades, ela doou todo o dinheiro que tinha no momento. Quando foram convidados para um banquete, ela comeu pouco e não bebeu. Em outro momento da campanha, ao encontrarem um bardo que cantava uma canção sobre a Costa da Espada, minha personagem perguntou se ele conhecia alguma canção de Amn.
Vejam que eu poderia ter escrito que minha personagem nasceu na rica e poderosa nação de Amn, em Forgotten Realms. Que ela abandonou uma vida de luxo e riqueza para se dedicar a ajudar os necessitados, quando recebeu um chamado divino. Poderia ter escrito também que ela está acostumada com uma vida de privações pois vive viajando de cidade em cidade doando a maior parte de suas provisões para os mais pobres. Mas sem aparecer em mesa, nada disso existiria de verdade.

O Papel do Mestre

Em diversas destas situações que citei acima, o mestre foi pego completamente de surpresa. Quando doei meu dinheiro, ele inclusive riu e falou após a sessão que aquela foi uma jogada ruim. Mas acredito que ele não entendeu até agora o quanto da minha personagem já apareceu em mesa. Não que ele se importe. Ele está contando sua história e nos conduzindo pela maravilhosa narrativa que ele pensou. Os backgrounds ou escolhas dos personagens não encaixam nos trilhos da aventura que ele está mestrando.
Mas acredito que esta construção orgânica é muito mais interessante para o mestre e para os jogadores. O background emergindo durante a sessão permite algumas reivindicações interessantes em cena, se bem utilizado. Uma vez que o jogador tenha trazido um detalhe do seu background, ele renuncia a todas as outras opções possíveis, logo o mestre não precisa se preocupar com o que ainda não apareceu em mesa. A única regra neste tipo de situação é respeitar a verossimilhança.
Um exemplo dessa interação aconteceu recentemente em uma mesa de Berserkr, que joguei no canal Pelas Barbas do Mestre. Em um momento de investigação, ao nos depararmos com uma oferenda aos deuses, eu perguntei se elas pareciam corretas. O mestre Java pediu um teste e eu negociei com meu background, pois como um personagem religioso, eu sempre deixava oferendas para os deuses em todos os locais que visitava. Logo, eu tinha conhecimento de oferendas. Essa reivindicação, foi suficiente para evitar o teste e me dar as informações que eu queria. Este exemplo mostra como um bom mestre é capaz de lidar com um background emergente, sem decorar 56 páginas que o jogador escreveu. E sem utilizar nenhum talher.

Deixe um comentário